Você provavelmente já ouviu que determinadas profissões teriam mais psicopatas do que outras. Mas será que isso realmente é comprovado pela ciência ou estamos diante de mais um daqueles mitos que se espalham na internet?
A resposta é mais complexa do que parece. Pesquisas encontraram diferenças nos níveis de traços psicopáticos entre algumas ocupações, mas isso não significa que uma profissão transforme alguém em psicopata ou que seus profissionais tenham esse transtorno.
Antes de tudo: psicopatia não é sinônimo de violência
Filmes e séries costumam apresentar o psicopata como alguém necessariamente violento, criminoso e incapaz de conviver em sociedade. Na realidade, a discussão científica sobre psicopatia é muito mais ampla.
O conceito envolve um conjunto de características de personalidade, que pode incluir aspectos como falta de empatia, comportamento manipulador, superficialidade emocional, egocentrismo e dificuldade em experimentar culpa ou remorso.
Isso também explica por que pesquisadores estudam a presença de traços psicopáticos fora do ambiente criminal. Uma pessoa pode apresentar alguns desses traços sem necessariamente preencher os critérios para um diagnóstico clínico.
Ter determinados traços de personalidade não significa automaticamente que uma pessoa seja psicopata.
Uma revisão científica sobre a prevalência da psicopatia na população adulta também alerta para a necessidade de interpretar com cautela as diferenças encontradas entre profissões.
Frontiers in Psychology — Prevalence of Psychopathy in the General Adult Population
Quais profissões aparecem com mais traços psicopáticos?
Uma das listas mais conhecidas sobre o assunto vem de um levantamento realizado por Kevin Dutton, que utilizou uma escala de autorrelato para avaliar traços psicopáticos e relacioná-los às profissões dos participantes.
Na pesquisa, foram analisadas respostas de 5.400 pessoas no Reino Unido. Entre as ocupações que apresentaram os maiores níveis médios de traços psicopáticos estavam:
| Posição | Profissão ou área |
|---|---|
| 1 | Executivos de empresas e CEOs |
| 2 | Advogados |
| 3 | Profissionais de rádio e televisão |
| 4 | Vendedores |
| 5 | Cirurgiões |
| 6 | Jornalistas |
| 7 | Clérigos |
| 8 | Policiais |
| 9 | Chefs |
| 10 | Funcionários públicos |
A lista não significa que essas profissões tenham “mais psicopatas”. O estudo identificou níveis mais elevados de determinados traços de personalidade entre os participantes dessas ocupações. Inclusive os malefícios causados pelos psicopatas no serviço público.

Executivos e CEOs
Os executivos apareceram no topo da lista de Dutton. Ambientes corporativos podem envolver competição intensa, tomada de decisões sob pressão, negociação e responsabilidade sobre outras pessoas.
Algumas dessas características podem se relacionar a determinados traços psicopáticos, como ousadia, baixa sensibilidade emocional e disposição para assumir riscos. Mas isso não significa que bons executivos sejam psicopatas.
Advogados
Advogados também aparecem entre as profissões com maiores níveis de traços psicopáticos no levantamento. A atividade exige argumentação, negociação, confronto de interesses e capacidade de manter o controle emocional em situações difíceis.
Essas características, porém, podem ser simplesmente habilidades profissionais. Ter autocontrole ou conseguir argumentar com firmeza não é sinal de psicopatia.
Cirurgiões
O caso dos cirurgiões é particularmente interessante. O profissional precisa tomar decisões rápidas, trabalhar sob pressão e manter estabilidade emocional durante procedimentos delicados.
Uma postura aparentemente fria pode ser necessária para executar o trabalho com precisão. Por isso, associar automaticamente frieza profissional à psicopatia seria um erro.
Vendedores e profissionais da mídia
Vendas, rádio, televisão e outras atividades de comunicação exigem interação constante, persuasão e capacidade de lidar com diferentes públicos.
Alguns desses comportamentos podem aparecer em pessoas com determinados traços psicopáticos, mas também são habilidades comuns e úteis em profissionais saudáveis.
Por que determinados ambientes podem atrair esses traços?
Uma possível explicação está nas características do próprio ambiente profissional. Algumas carreiras oferecem mais autonomia, competição, prestígio, poder de decisão ou contato com situações de risco.
Uma revisão científica sobre psicopatia na população adulta cita justamente ocupações como empreendedores, gestores, políticos, investidores, vendedores, cirurgiões e advogados entre aquelas que já foram associadas a níveis mais elevados de determinados traços.
Entre os fatores que podem ajudar a explicar essa relação estão:
- Competição: ambientes altamente competitivos podem valorizar pessoas muito orientadas para resultados.
- Autoridade: algumas posições permitem exercer maior controle sobre decisões e equipes.
- Risco: determinadas profissões exigem disposição para tomar decisões em situações de incerteza.
- Prestígio: carreiras de alto status podem ser atraentes para pessoas muito preocupadas com poder e reconhecimento.
- Persuasão: profissões que dependem de negociação e influência podem valorizar habilidades sociais específicas.
Mas existe uma questão importante: ainda não é possível afirmar simplesmente que esses ambientes “produzem” psicopatas. A relação pode envolver tanto características individuais quanto a própria seleção profissional.
Ou seja, uma pessoa pode escolher determinada carreira porque suas características combinam com aquele ambiente, e não necessariamente desenvolver essas características depois de entrar nele.
Existem profissões com menos traços psicopáticos?
O mesmo levantamento de Dutton também encontrou ocupações com níveis menores de traços psicopáticos. Entre elas estavam profissionais de assistência social e saúde, enfermeiros, terapeutas, artesãos, professores, artistas criativos, médicos e contadores.
Isso não significa que essas profissões sejam ocupadas exclusivamente por pessoas empáticas ou que seus profissionais estejam livres de comportamentos problemáticos.
O resultado apenas mostra uma diferença estatística encontrada naquele conjunto de participantes. É justamente por isso que não devemos transformar uma pesquisa sobre médias de grupos em um julgamento individual.
Uma profissão nunca é suficiente para determinar a personalidade de uma pessoa.

PubMed in Psychology — Prevalence of Psychopathy in the General Adult Population
O que outras pesquisas dizem?
Pesquisas posteriores reforçam que a relação entre psicopatia e profissão é um tema que precisa ser tratado com cautela.
Uma revisão científica publicada na área de psicologia destacou que estudos sobre psicopatia no ambiente de trabalho ainda apresentam limitações metodológicas e que algumas conclusões divulgadas na mídia são mais fortes do que as evidências permitem.
Outra revisão sistemática encontrou prevalência mais elevada de psicopatia em alguns grupos de trabalhadores, como gestores e executivos, mas ressaltou que essa conclusão estava baseada em apenas três estudos, com uma amostra total de 668 pessoas. Os autores recomendam cautela na interpretação desses números.
Há ainda pesquisas que mostram resultados diferentes. Um estudo publicado em 2021 sobre pessoas em empregos de “colarinho branco”, por exemplo, não encontrou suporte para a ideia de que psicopatas sejam necessariamente mais propensos a ocupar cargos gerenciais.
É justamente essa variedade de resultados que impede uma conclusão simples como “profissão X tem mais psicopatas”.
Como reconhecer um comportamento problemático no trabalho?
Se você está preocupado com alguém no ambiente profissional, olhar apenas para a profissão da pessoa não ajuda muito. É mais útil observar comportamentos concretos e repetidos.
Alguns sinais que podem indicar um ambiente profissional problemático incluem:
- manipulação frequente de colegas;
- mentiras utilizadas para obter vantagens;
- tentativas constantes de colocar funcionários uns contra os outros;
- abuso de autoridade;
- falta de responsabilidade pelos próprios erros;
- comportamentos antiéticos recorrentes;
- humilhação ou intimidação de colegas.
Mesmo assim, nenhum desses comportamentos isoladamente permite diagnosticar psicopatia. Diagnósticos relacionados à saúde mental precisam ser realizados por profissionais qualificados e não podem ser baseados em listas encontradas na internet.
Se o problema no trabalho envolve assédio, ameaças, discriminação ou outras condutas graves, concentre-se no comportamento e procure os canais adequados da empresa ou das autoridades responsáveis, em vez de tentar diagnosticar a pessoa.

O que essa pesquisa realmente ensina?
A principal lição talvez seja justamente evitar conclusões rápidas. Algumas características que podem aparecer em pessoas com traços psicopáticos também podem ser valorizadas em determinadas profissões quando aparecem de maneira equilibrada.
Autoconfiança, capacidade de tomar decisões, controle emocional, coragem para assumir riscos e habilidade de negociação não são características ruins por si mesmas.
O problema aparece quando comportamentos como manipulação, exploração, falta de responsabilidade e ausência de consideração pelos outros passam a ser usados de forma prejudicial.
A literatura científica também discute a chamada “psicopatia bem-sucedida”, mostrando que pessoas com determinados traços podem funcionar socialmente e profissionalmente sem necessariamente apresentar o perfil tradicionalmente associado à criminalidade.
Por isso, talvez a pergunta mais útil não seja “qual profissão tem mais psicopatas?”, mas sim: quais características uma organização está recompensando?
Se uma empresa valoriza apenas resultados a qualquer custo, por exemplo, pode criar um ambiente em que comportamentos agressivos ou antiéticos tenham mais espaço. Essa é uma questão de cultura organizacional, e não simplesmente de personalidade individual.
Você já trabalhou com alguém que parecia extremamente manipulador ou sem empatia? E acha que empresas deveriam avaliar mais o comportamento de seus líderes antes de promovê-los?
Conclusão
Algumas pesquisas realmente encontraram níveis mais elevados de traços psicopáticos em determinadas profissões, especialmente em áreas como executivos, direito, vendas, mídia e cirurgia. Porém, isso está longe de significar que essas profissões sejam formadas por psicopatas.
O mais importante é entender a diferença entre uma característica de personalidade e um diagnóstico. Profissão, aparência confiante ou comportamento frio não são suficientes para definir quem alguém é.
Ao observar o ambiente de trabalho, vale muito mais prestar atenção em atitudes concretas, como manipulação, abuso de poder, desonestidade e comportamento antiético recorrente.
FAQ
Qual profissão tem mais psicopatas?
Uma pesquisa bastante citada encontrou os maiores níveis médios de traços psicopáticos entre executivos de empresas, seguidos por advogados, profissionais de rádio e televisão, vendedores e cirurgiões. O resultado representa características médias dos participantes, e não uma porcentagem de psicopatas em cada profissão.
Ser advogado ou cirurgião aumenta a chance de uma pessoa ser psicopata?
Não há evidência suficiente para afirmar isso. Essas profissões podem exigir habilidades como controle emocional, negociação, tomada de decisão e tolerância à pressão, que também podem aparecer em pessoas com determinados traços psicopáticos. Isso não significa que a profissão cause psicopatia.
Todo psicopata é violento?
Não. A imagem do psicopata violento é muito reforçada pela ficção. Na pesquisa científica, psicopatia envolve um conjunto mais amplo de características de personalidade. Pessoas com determinados traços podem viver e trabalhar normalmente e não necessariamente cometer crimes.
É possível identificar um psicopata no trabalho?
Não é possível diagnosticar alguém apenas observando comportamentos no escritório. Manipulação, mentira ou falta de empatia podem ter diversas causas. Um diagnóstico deve ser realizado por profissionais qualificados utilizando métodos apropriados.
Quais profissões apresentaram níveis menores de traços psicopáticos?
No levantamento de Dutton, profissionais de assistência social e saúde, enfermeiros, terapeutas, professores, artistas criativos, médicos e contadores apareceram entre as ocupações com níveis menores de traços psicopáticos. Esses resultados não significam que todos os profissionais dessas áreas tenham a mesma personalidade.
Por que alguns traços psicopáticos podem ajudar na carreira?
Características como autoconfiança, disposição para assumir riscos, controle emocional e capacidade de persuasão podem ser valorizadas em algumas profissões. O problema ocorre quando características como manipulação, exploração ou falta de responsabilidade passam a orientar decisões e prejudicar outras pessoas.
O que fazer se houver comportamento abusivo no trabalho?
Em vez de tentar descobrir se a pessoa é psicopata, registre comportamentos concretos e procure os canais apropriados da organização. Em situações graves, como assédio, ameaça ou discriminação, pode ser necessário buscar orientação profissional ou os órgãos responsáveis.








